Bati a porta com força ao sair e desci as escadas com pressa. Queria comprar tabaco. Independentemente do raspanete infindável da minha mãe a frente da dita porta. Também precisava de apanhar ar, o ambiente aqui em casa hoje estava demasiado pesado para o meu gosto.
Fui de passo acelerado até ao largo e para minha grande “surpresa” o café estava fechado. Também a esta hora.. No Buraco, o nome não muito carinhoso que dou á minha terra, a partir das 9 da noite nada se encontra aberto, nem os cafés. A minha única hipótese era ir até a bomba de gasolina a mais ou menos 500 metros dali. Tirei o mp3 e pus-me a caminho. Também aproveitava a caminhada para esvaziar um pouco a mente. E foi isso mesmo o que eu fiz, a ouvir punk rock a altos berros, durante um bocado não pensei em absolutamente nada. Satisfatório por um lado, mas também um pouco entranho para mim.
Comecei a tomar atenção a letras e a lembrar-me do significado que tinham tido para mim ainda a bem pouco tempo. Até certo ponto, ainda têm mas não é a mesma coisa. Não é o mesmo sentimento latejante que me fazia pular e berrar nos concertos que há tanto tempo não frequento. Eu consideravam-me straightedge diehard… engraçado. Eu sei que as pessoas mudam e têm todo esse direito, mas nunca pensei mudar tão cedo uma maneira de pensar que me dizia tanto e que me fazia sentir bem. Não é que não me senti bem agora, sinto-me apenas… diferente. Era isso que eu procurava.
Finalmente cheguei a bomba de gasolina e pedi um lucky strike red. Tive um pequeno flash back dessa tarde em que me senti mal por ter fumado tanto. Eu e a minha irmã estávamos no café e um pedi um chá de menta gelado que não cheguei a acabar e pensei que ia vomitar ali mesmo. Fumei um maço inteiro em menos de 3 horas, antes de ir para o ginásio. A minha irmã fez uma coisa nesse café que não é assim tão raro de acontecer. Para variar as nossa conversas ultimamente falamos no nossos pais e do quanto eles estão preocupados por minha causa, falamos também sobre as minhas decisões de voltar para a escola e no peso que e isso tem para eles. Não quero parece egoísta mas… Então e eu? Não tenho direito a uma segunda hipótese de planear o meu futuro, vou ser sempre perseguida por um erro? A depressão também me serviu para abrir olhos para mim mesma e para o meu futuro. Eu sei que os meus pais não têm culpa dos meu erros, mas também não está da discrição do trabalho deles apoiarem quando tenho uma visão concreta para aquilo que quero segui e estudar? Estou farta trabalhos reles de ordenado mínimo e de ser tratada como inferior. Ser tratada como uma pessoa que tem a sorte de estar ali a trabalhar mas não o merecer.
Paguei os cigarros e pedi um copo de água. Preparei-me para mais uma caminhada e fiz o trajecto para casa tal como fiz o anterior; de mente vazia, só a andar, a respirar e a ouvir musica. Estranho, nunca gostei de andar nem de fazer exercício mas esta noite só o sentir do chão a mover debaixo dos meus ténis liberta-me.
Quando entrei na minha rua desacelerei o passo. Ainda não tinha vontade de entrar em casa por isso sentei-me no degrau do alpendre. Estava com calor, talvez devido a caminhada e tirei o caso. Abri o meu novo maço de luckys como que abre uma prenda de natal, euforicamente. Acendi um cigarro e relaxei contra do degrau duro e frio. Continuava a ouvir musica, desta vez mais calma enquanto fumava, senti-me bem, tão bem. Não estava satisfeita com a minha posição actual e depois de fumar o meu primeiro cigarro subi para o muro ao lado dos degraus da entrada, aquele que me fazia vertigens quando era miúda e ia brincar para o quintal. Os meus amigos sempre me desafiaram para saltar do muro para o chão do outro lado mas nunca tive coragem, ainda hoje não tenho. Apesar de ser uma altura ridícula. Sentei-me do dito muro com as pernas esticadas ainda a ouvir musica. Puxei do meu segundo cigarro e acendi-o. A luz das escadas do prédio ligaram de repente e o meu pai saiu pela porta, pronto para ir para o trabalho. Ficou a olhar para mim. “Sermão.. “ pensei.
- Não fumes muito, sobe que a tua mãe está preocupada.
Já devia saber.. Ele nunca foi de muitas palavras e já nessa tarde me tinha dado o sermão dele quando me estava a medir a tensão. Quando cheguei do ginásio tinha 8.2 de máxima e 6.8 de mínima a minha pulsação era de 110. Eles ficaram preocupados e deram-me um raspanete infindável pela quantidade de tabaco que tinha fumado anteriormente nesse dia.
- Quando os dois valores de tensão são iguais as pessoas morrem. Não podes fumar tanto Valéria, já viste a tua pulsação?
Nessa altura a primeira coisa que pensei foi: “Eu não quero morrer”. Agora, sentada no muro do alpendre de casa, com um cigarro na mão, esse sentimento era longínquo. Não por me ter esquecido dele, mas porque simplesmente me apercebi que não tenho mais medo de morrer. Não me importa, sinceramente não sei porque.. Continuo a ter medo da dor, mas não do a seguir, do não existir. Tenho mais medo de existir fisicamente e não existir na mesma. De cometer mais erros e de levar com eles na tromba vezes sem conta, cortesia dos papás. As vezes preferia que eles me agredissem fisicamente do me atirassem as coisas verbalmente a cara. Dói tanto, e não consigo faze-los compreender isso. Por isso continuei no mesmo sitio, a ouvir a mesma musica e a fumar o meu cigarro… até as lágrimas começarem a cair. Tenho mais medo de falhar na vida do que de morrer..
Apaguei o meu ultimo cigarro e subi as escadas penosamente. Abri a porta com a chave, a minha mãe está sentada no sofá (e lá continua), não nos dirigimos palavra.
Fui comprar tabaco e voltei a casa, na mesmo sentimento do que quando sai; perdida.